O Cavalo por Vir – Correspondências para mapuchizar a câmera

Luiza Spotorno

Santana do Riacho, 12 de setembro de 2025

 

Francisco,


São 18h22. A montanha agora, acesa por um sol poente, mostra cores de brasa, de um calor já vivido. Em sua extensão generosa, o anoitecer já murmura outras possibilidades. Na cidade, quando da noite nos apartamos, buscamos circuitos de substituição luminosa, partículas sintéticas, fótons fabricados. Esquecemos que o escuro também sustenta. Há quem o tome apenas como ausência, enquanto outros — como nos diz Carlos Papá [1] — veem-no como a mãe do universo. Arandu: aqueles que sabem sentir a própria sombra.

 

* * *

 

Sob este céu de ocre, de fuligem, de sombra-queimada, o vento permite que paire, rente ao chão, o gavião-carijó – cruzando terras fadadas a responder a nomes de ouro e de minério.

 

O culto à extração aqui nunca cessou: vindo de uma febre premente, tornou-se combustão lenta de mundos. Abaixo da Serra Morena, ergueram uma barragem — para que nada fugisse, para que tudo se deixasse ver.

 

O espelho d’água, verde espesso, imóvel, reflete uma promessa

irrealizável: a de um encontro pacífico entre a abundância das formas e o terreno rasgado.

 

Aqui, no profundo deste vale, onde tudo se dobra em vertentes e travessias, um pouso é sempre passagem — como a calha que

assegura o fluxo do rio.

 

Nos seus filmes, é preciso esperar pelo começo, que nem sempre chega. Há coisas que não se deixam apreender se olhadas muito de frente. Às vezes, só se alcançam por rodeio, tal um cavalo que gira em círculos: uma aproximação ao inaudito, ajuste fino de escuta. Imagens que já nascem submersas, não retendo o que passa, preferindo a deriva ao eixo.

 

Me pergunto, então, Francisco:

Como voltar a ver — e a ouvir — o essencial do território?

O que permite que, ao filmar, não sejamos uma máquina passiva de repetição, mas um instrumento de reciprocidade, de errância, de presença? É possível fazer com que a câmera se torne corpo, mais poroso do que ávido?

 

Talvez o cinema xamânico, que nos propõe Raul Ruiz [2] (sobre o qual brevemente conversamos), nos aponte para um direcionamento: seguir o rastro de uma respiração — atentos ao que se desencadeia, ao que escapa, ao sopro profundo de que nos fala Papá.

 

L.

 

* * *

 

2 de outubro de 2025

 

Estimada Luiza [3],

 

Assim como meu povo, os mapuche, adotou o cavalo durante a invasão espanhola – criou-o, liberou-o de seu uso colonial e transformou-o em parte essencial de nossa defesa e de nossa ritualidade –, hoje tomo a câmera como esse novo cavalo. Ainda que não seja originária de nosso território, a câmera pode ser mapuchizada. Ao cavalgá-la, libero-a de sua matriz colonial e converto-a em uma ferramenta a serviço de nossa visão, de nossas memórias e de nossos relatos.

 

Para mim, o cinema-medicina [4] não é somente uma questão estética: é um processo de cura da perspectiva colonial que, por gerações, tem distorcido nossas imagens e identidades. Através do que chamo de imagens-medicina, convoco a biodiversidade, os sons antigos, os sonhos, os idiomas, as ritualidades e os tempos próprios de nossos povos.

 

Em minhas obras, denuncio as violências físicas, simbólicas e espirituais que temos padecido e, ao mesmo tempo, construo relatos a partir de nossas sensibilidades. Com cada plano, busco desmontar a lógica de inferioridade imposta pelo cinema ocidental, que historicamente nos tem representado como inexistentes, selvagens e inclusive terroristas. Me inspiram, nessa causa, cineastas indígenas como Alanis Obomsawin (Abenaki), Divino Tserewahú (Xavante), Duiren Wagua (Guna Dule), Zacharias Kunuk (Inuit) e David Herández Palmar (Wayúu). Eles, sim, têm sabido cavalgar suas próprias câmeras.

 

Desse impulso, nasce um cinema que é um contraenquadramento da visão ocidental. Enquanto o cinema hegemônico enquadra, recorta e delimita, o cinema mapuchizado circunda. É nessa circularidade que revela-se sua sintonia com os códigos cosmogônicos mapuche: uma perspectiva

holística na qual o tempo não é linear. O relato não se impõe, mas se escuta, acompanha e retorna. Em vez de dominar a imagem, nossa câmera caminha com o território e sonha com a gente.

 

Então, ao mapuchizar esse instrumento, o cinema-medicina não serve apenas a nós próprios: abre também um caminho para aqueles que não pertencem aos nossos povos, gerando espaços de diálogo real entre culturas. No mais profundo, trata-se de um gesto que faz a imagem convalescer, revelando aquilo que ficou fora de campo, o que o Ocidente sempre encarou de longe. Também é restaurar afetos interrompidos, reconectar com a ancestralidade e cicatrizar as feridas herdadas.

 

Em essência, é o sopro medicinal do curandeiro: um antídoto para o veneno colonial.

 

* * *

Circundar a Imagem

 

O cinema indígena não enquadra:

circunda.

 

Não corta, não delimita.

Flui como rio,

como vento entre o bosque.

Nossos relatos não avançam em linha reta,

se devolvem, se repetem, se aprofundam.

São tempo-espiral.

São palavra que volta.

Enquanto o cinema hegemônico observa de longe,

o cinema indígena adentra o círculo,

envolve-se, acompanha, sonha com o território e sua gente.

Assim como nossos antigos adornavam os cavalos com prata,

hoje adornamos a imagem com memória.

 

Olhar Fora de Campo

 

O cinema-medicina não somente cura os nossos.

Também pode curar a perspectiva daqueles que têm nos encarado mal.

Pode abrir outros olhos,

outros corações,

outras memórias.

Pode ser uma ponte entre mundos que foram separados à força.

Porque o que fazemos é mostrar o que ficou de fora de campo,

o que a perspectiva colonial quis apagar.

Mas está aí, pulsando.

E, ao visibilizá-lo,

tornamos a nos encontrar.

Com nossas ancestrais.

Com nossos sonhos.

Com os afetos que o desenraizamento interrompeu.

O cinema-medicina é, para mim,

um antídoto contra o veneno colonial.

Uma forma de nos olharmos com ternura,

de falarmos sem medo,

de voltarmos a ser, sem pedir permissão.

 

Francisco Huichaqueo

[1] Papá, Carlos, "Pytun jera, desabrochar da noite", em Cadernos SELVAGEM (publicação digital: Dantes Editora / Biosfera, 2021).

[2] Ruiz, Raúl, "Por un cine chamánico", em Poética del cine (Santiago: Sudamericana, 2000).

[3] A correspondência de Francisco Huichaqueo foi originalmente escrita em espanhol e traduzida para o português.
[4] N.T. Medicina, no original, em espanhol, pode se referir tanto ao vocábulo cognato da língua portuguesa “medicina” – um corpo de conhecimentos científicos mobilizados no combate a doenças —, quanto à palavra “remédio”. Como se trata de um texto cujo autor é indígena e no qual, mais adiante, o termo hispânico remedio aparece, optamos por traduzir medicina em seu sentido mais amplo, corriqueiramente utilizado pelos povos tradicionais, isto é, de “medicina tradicional indígena”, um sistema de práticas e conhecimentos curativos desses povos.

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